Originais somente são aqueles engenhos que se infundem da natureza, musa inexaurível porque é divina. Para isso é preciso, ou nascer nas idades primitivas, ou desprezar a sociedade e refugiar-se na solidão.
José de Alencar, Senhora.
Dentre as crônicas publicadas por José de Alencar no Correio Mercantil, de setembro de 1854 a julho de 1855[1], duas possuem particular importância do ponto de vista crítico, pois possibilitam discernir tendências pelas quais o escritor irá se orientar quando da montagem do enredo de alguns de seus textos ficcionais. Elas fornecem, nesse sentido, excelente ponto partida para uma análise da produção posterior de Alencar, indicando posições básicas quanto a questões e dilemas específicos de seu tempo, mais tarde, no domínio da ficção, retomadas e desenvolvidas. Apresentam marcos primários da concepção do autor sobre formas de organização e relacionamento sociais que viriam a funcionar como referências, verdadeiras doxas.
Um desses marcos é a comparação entre passado e presente, e a conseqüente valoração do primeiro, algo aliás recorrente na obra de Alencar. Nessas duas crônicas, a exemplo do que fará mais adiante, a oposição serve para identificar, e lamentar, um processo em curso de degenerescência de valores, cuja causa maior ele atribui ao avanço de uma razão instrumental de corte burguês, de que resultava uma absolutização dos cálculos de interesses, mormente financeiros[2]. O diagnóstico é nelas tanto mais patente na medida que um dos assuntos centrais é o incremento das atividades econômicas, ocorrido no Rio de Janeiro, nos anos de 1850.
Embora composta “num momento de tédio”, como explica o cronista, quando “o espírito se revolta contra as misérias do presente” (p. 142), na crônica de 21 de janeiro de 1855 este se esforça por mostrar algum otimismo quanto a possíveis efeitos benéficos do surto de transformações na economia. O fortalecimento do “espírito de empresa” e a intensificação da “atividade comercial” são considerados fatores potenciais para “o engrandecimento”, para a preparação de “um futuro cheio de riqueza e de prosperidade”, prometendo enfim, e “sem dúvida alguma”, “grandes resultados para o país” (p. 146). As boas perspectivas, entretanto, não o impedem de traçar uma imagem pouco lisonjeira dos investidores, cuja “agitação” e “atividade espantosa” o incomodam. Procedendo por generalização, o cronista engloba a todos na categoria pouco nobre de “agiotas” ou “especuladores”. Enfatiza assim a busca obsessiva de ganhos imediatos e a facilidade com que estes eram obtidos, isso a um ponto tal que chega a sugerir o abandono de práticas tradicionais de enriquecimento de curto prazo, como o “casamento rico” e “sinecuras”, trocadas pelo jogo financeiro. Daí condicionar o sucesso dessa “nova economia” de então à intervenção reguladora do governo, que deveria dirigir e aplicar convenientemente os capitais disponíveis, impedindo a “incorporação de companhias que não revertam em bem do país, que não tenham todas as condições de bom êxito”, sem o que, “do contrário, em vez de benefícios, teremos de sofrer males incalculáveis” (p. 146).
Poucos meses depois, na crônica em que se despede do Correio Mercantil, de 8 de julho de 1855, revela profundo desagrado com a evolução do quadro, que segundo ele desandara em especulação desenfreada. No texto anterior o fascínio pelo passado podia ser entrevisto no tom nostálgico com que o escritor aludia ao desaparecimento de “fatos brilhantes de coragem e heroísmo”, à substituição de “feitos de armas” pelas “conquistas da civilização e da indústria” (p. 146), e percebido no estilo empenhado e vigoroso de que fez uso para recriar passagens marcantes da história do Rio de Janeiro. Agora, no entanto, expressa com todas as letra o seu mal estar em relação à situação do momento, mostrando ter se mantido fiel ao espírito que desde aquela primeira crônica o movera, de procurar, “nos tempos que passaram, um novo elemento de força e de atividade” (p, 142).
Sua concepção do passado permanece no terreno do mito, como atesta o recurso a imagens quiméricas de feitos guerreiros, temperados de bravura e coragem, e a atribuição aos homens de outrora de honra e caráter impolutos. Isso lhe permite acentuar a decadência da sociedade moderna, cujos costumes e valores em processo de vulgarização, ao menos entre as elites cariocas e seus agregados, são definidos pela mesquinhez, dado o predomínio dos interesses comerciais e pecuniários. Um jogo com o duplo sentido da palavra “ação” evidencia, a um só tempo, a perspicácia do escritor e o desânimo do cidadão com seus contemporâneos:
Dantes os homens tinham as suas ações na alma e no coração; agora tem-nas no bolso ou na carteira. Por isso naquele tempo se premiavam, ao passo que atualmente se compram.
Outrora eram escritas em feitos brilhantes nas páginas da história, ou da crônica gloriosa de um país; hoje são escritas num pedaço de papel dado por uma comissão de cinco membros.
Aquelas ações do tempo antigo eram avaliadas pela consciência, espécie de cadinho que hoje caiu em desuso; as de hoje são cotadas na praça e apreciadas conforme o juro e interesse que prometem (p. 270; itálicos do original).
Ao lado desta inclinação pelo passado, e sempre em nome da vontade de colaborar para atenuar as “misérias do presente”, Alencar ainda se esforça por também buscar “além, no futuro”, outro “novo elemento de força e de prosperidade”, conforme prometera na crônica de 21 de janeiro. Introduzindo um marco complementar ao primeiro, esse texto apresenta outras linhas do modelo ideal de sociedade cujo esboço começara já a traçar. O objeto de sua atenção, agora, são tipos particulares de atores sociais existentes na sociedade brasileira, ou que pensava ser vantajoso a ela incorporar, tendo em vista viabilizar o progresso e desenvolvimento almejados. Ali, ao defender a intervenção do Estado em atividades empresariais e mercantis, entre as empresas que considerava dignas de apoio, por responderem ao “pensamento de uma necessidade pública” (p. 147), o cronista colocava as companhias de colonização agrícola. Qualificada como “a primeira condição de riqueza e de engrandecimento”, a colonização era para ele empreendimento fundamental, sobretudo no caso de “um povo novo e de vasto território, como o nosso” (p. 148). Esse raciocínio justifica os elogios que endereça ao governo, pelas medidas adotadas para atrair estrangeiros, em especial a concessão de subvenções a empresas agrícolas que promovessem a imigração para o país. O entusiasmo pelo assunto leva-o a inclusive propor uma política imigratória mais ousada, de sorte a estabelecer “uma colonização em vasta escala”, “uma emigração regular” (p. 150)[3].
Precavendo-se contra possíveis empecilhos a sua proposta, como a existência, na sociedade brasileira, de estigmas em relação a estrangeiros, Alencar procura retratá-los de acordo com um viés altamente positivo. Ao caracterizá-los, embora não despreze sua função de trabalhadores, tampouco sua importância para o aumento da população do país, opta por sublinhar o aporte que trariam de “inteligência prática” e sua contribuição para o aperfeiçoamento racial, destarte mútuo (p. 148). Quanto aos preconceitos, ao “ciúme do estrangeiro”, reputando suas causas a um ranço de egoísmo, além do medo da perda de privilégios, conclama a população a abandoná-los, em nome do interesse coletivo, o que apressaria o processo de construção do país “grande e poderoso” do porvir (p. 150).
A despeito destas considerações, cujo cunho liberal é evidente, ao longo do texto o cronista vai fornecendo indicações mais precisas sobre o perfil do imigrante que pensava ser útil à nação, e sobre o lugar efetivo que deveria aqui ocupar. Prescreve algumas condições para admitir o estrangeiro no país que delineia – o imprescindível, como esclarece ao louvar o caráter seletivo que comandava a concessão de subvenções governamentais, é que seja “colono agrícola”, “honesto e lavrador”, tenha entre 10 e 45 anos e seja fixado em “colônias ou fazendas pertencentes a empresas agrícolas” (p. 149). O fato de o governo reservar-se o direito de julgar a obediência dessas exigências era tomado como alvissareiro, pois tal procedimento impediria ou dificultaria “a introdução de colonos que não tenham boa moral e uma vida honesta” (p. 149).
O estrangeiro, portanto, seria em princípio bem-vindo, mas apenas se colocado sob a tutela do Estado ou de empresários, caso se ocupasse da lavoura e não atentasse aos velhos e bons costumes. Os imigrantes no Brasil projetado por Alencar são seres domesticados, privados de autonomia; mesmo sua origem seria objeto de regulamentação, os incentivos devendo ser “concedidos unicamente àquelas nações cuja população desejaríamos chamar ao nosso país” (p. 150). O pretenso liberalismo do autor, sugerido ainda pela suposta disposição de receber “na nossa comunhão todos os irmão que nos estendem as mãos” (p. 150), como reclamara dos compatriotas, no final mostra possuir alcance um tanto reduzido, não ultrapassando os limites da retórica. Seriam “ouropéis de liberalismo”, como os que Fernando Seixas tinha a “balda de alardear”, como nos diz o narrador de Senhora?[4]
A substituição da mão-de-obra escrava, com o que seria minimizada “a crise proveniente da deficiência dos braços para a agricultura” (149) que se seguiu à extinção do tráfico, era outra razão que o cronista aduzia para justificar a necessidade do incentivo à imigração. A rápida menção ao problema da escravidão, em contraste com a longa digressão acerca da colonização por estrangeiros, indica o plano secundário a que Alencar, em suas reflexões, relegava o negro. A sua resposta a uma das questões centrais implicadas pela promoção da imigração, e que resta implícita – o que fazer com os escravos? – é o silêncio, que sinaliza o abandono dos escravos à própria sorte, uma classe de desprezo, ou, quando menos, uma falta de empenho em discutir um dos problemas mais graves que pairavam no horizonte da sociedade brasileira de meados do século XIX.
O descompromisso com a questão da escravidão é uma das balizas do desenho de nação que Alencar traça nas duas crônicas. Relacionada a ela figura a abertura das fronteiras para imigrantes, desde que satisfeitas as condições há pouco expostas. Retomando, as outras duas, também complementares, são a glorificação de um passado mitificado, pontuado de ações e posturas cavalheirescas, e a aversão pela avidez do lucro, que corroía a sociedade carioca, levando à desumanização dos seres e ao esquecimento de virtudes de antanho. Estas coordenadas básicas orientam uma leitura de três obras de Alencar: O demônio familiar (1857), O guarani (1857) e Senhora (1875)[5]. O exercício visa explorar possíveis conseqüências de uma sugestiva observação de Antonio Candido, segundo a qual a prosa romântica brasileira se caracteriza pela “vocação de elaborar conscientemente uma realidade humana, que extrai da observação direta, para com ela construir um sistema imaginário e mais durável”[6].
Lidos em conjunto, os três textos revelam, quanto a uma forma idealizada de organização social, a manutenção daquelas premissas básicas antes apontadas, neles retrabalhadas ou elaboradas ficcionalmente. Elas se desdobram em um conjunto razoavelmente coeso de regras de conduta e postura que, nestes livros, regulam o funcionamento do universo ficcional proposto por José de Alencar. Respostas do autor a dilemas e problemas da sociedade brasileira de seu tempo podem por conseguinte ser neles encontradas, após o trabalho analítico.
No que tange à idealização e glorificação do passado, no caso de O guarani é por certo desnecessário enfatizar o elevado apreço que o narrador do livro revela pelas virtudes cavalheirescas, que formam o eixo axiomático pelo qual são aferidas as ações das diversas personagens. Para indicá-lo, basta chamar a atenção para a sua evidente empolgação quando relata feitos e gestos de D. Antônio ou de Álvaro, que pinta com cores grandiosas; ou lembrar que mesmo a personagem de Peri é criada de modo a ajustar-se com naturalidade, ou quase, ao código de honra da mais pura fidalguia. Seja como for, valores como abnegação e desinteresse, amor à família, respeito a hierarquias instituídas, devoção cristã, fidelidade, honra, empenho e apreço pela verdade, nobreza de caráter e coragem, castidade, senso de justiça, entre outros, constituem inegável pólo positivo.
O modelo de organização da casa de D. Antônio talvez ilustre com perfeição normas vigentes naquele passado cujo desaparecimento Alencar tanto lastimou nas crônicas comentadas. Alguns traços dele, contudo, reaparecem em O demônio familiar e em Senhora, configurando o padrão de comportamento pelo qual mesmo a sociedade urbana da segunda metade do século XIX deveria se pautar, descontados os feitos guerreiros. Na peça, é sobretudo a personagem de Eduardo, o jovem médico que com a morte do pai assumira o lugar de “chefe de uma família” (p. 83), que expõe as formas de conduta tidas por boas e sãs. De acordo com elas, a vida social devia se concentrar no espaço doméstico, por sua vez regido por uma rígida ordem hierárquica, com clara distribuição de funções: à mulher caberia “a parte do consolo, ou da ternura; ao homem, a parte da coragem e do trabalho” (p. 124). Nas relações amorosas, o estrito respeito à “reputação” das moças de família deveria ser de rigor. O pressuposto é, claro, a sinceridade dos sentimentos, a castidade e a ausência de quaisquer outros interesses que maculem a pureza ambicionada, em especial os financeiros, já que, “soberano”, o amor “não se vende” (p. 119). Posta a fortuna a correr, o ideal do homem de bem, para quem “pobreza”, “trabalho” e “felicidade” (p. 169) formam excelente rima, são as relações afetivas estáveis e duradouras (a “mãe, uma esposa e uma irmã”, são “anjos tutelares que... velarão sobre a felicidade de nossos filhos”; p. 170). Namoricos e aventuras são deplorados e, por isso, banidos da esfera familiar. O espaço que lhes é próprio é o público, em particular os salões onde imperam as convenções mundanas, infensas à sinceridade e à harmonia das relações domésticas, que estimulam o gozo do prazer passageiro, o descompromisso, a paixão frívola, etc.
Com pequenas atualizações e maiores especificações quanto a certas nuanças, quadro semelhante se repete em Senhora, sendo notadamente avalizado pelo narrador, que interfere com alguma freqüência no relato, e por Aurélia. A oposição entre passado e presente recebe no romance grande realce; em algumas passagens o primeiro é abertamente lembrado em clave saudosa, como quando o narrador apologiza a “antiga educação brasileira, já bem rara em nossos dias, que, se não fazia donzelas românticas, preparava a mulher para as sublimes abnegações que protegem a família, e fazem da humilde casa um santuário” (p. 32). Com maior freqüência, contudo, o contraste resta implícito, preponderando objeções a valores recém adotados na sociedade carioca. A esta são dirigidas as mais pesadas críticas: “corrompida” (p. 103), teria o poder de forjar seres “artificiais”, com corações embotados pelo “galanteio dos salões” (p. 85), para quem o amor deixara “de ser um sentimento” e tornara-se “uma fineza obrigada entre os cavalheiros e as damas de bom-tom” (p. 88). Sobre a moral aí existente, era “fácil e cômoda” – daí ser “tudo... permitido em matéria de amor; e o interesse próprio tem plena liberdade, desde que transija com a lei e evite o escândalo” (p. 46); daí a normalidade das “alianças de conveniência”, que “todos os dias se estavam fazendo” (p. 57), e a perda do sentido e da importância do casamento, antes “ato solene”, “considerado como a iniciação do mancebo na realidade da vida”, preparando “a família, a maior e mais séria de todas as responsabilidades” (p. 132). O resultado final eram “esses aleijões de homens de bem”, “aqueles monstros” vivendo sob o “influxo de uma civilização adiantada”, para quem “mentir a uma senhora..., trair um amigo, seduzir-lhe a mulher, eram passes de um jogo social, permitidos pelo código da vida elegante” (p. 90).
Como em O demônio familiar, a oposição entre passado e presente embute uma outra, entre vida caseira, com suas relações estáveis, simples e verticais, e vida social, domínio onde as relações sociais são complexas e não raro conflitantes, com nítida preferência pela primeira. Dadas as particularidades de sua trama, em Senhora, por outro lado, a condenação daqueles que se submetem a interesses e cálculos pecuniários é feita com maior vigor. “Vil metal”, o ouro é visto como motivo determinante do rebaixamento e da humilhação humanas, tendo particular importância no processo de degradação social.
É a ameaça a esse feixe de valores e princípios a mola que faz girar o enredo dos três textos, constituindo o desafio maior do ficcionista manejar os desarranjos de modo a preservá-lo. O modelo de organização social proposto por Alencar é assim, ao mesmo tempo, ponto de partida e de chegada. A atuação das personagens que o põem à prova, seres desviantes, simultaneamente exemplifica possíveis soluções que permitiriam mantê-lo em plena vigência.
Seixas, principal alvo dos epítetos de “aleijão de homem de bem”, ou de “homem equívoco”, é um produto típico da decadência moderna, de que é a súmula. Seu caso é, entretanto, exemplar, porque descortina o cenário da regeneração, da reconversão do pecador – sua trajetória nada mais faz que reforçar a doxa, mostrar que, a despeito de todas as transformações por que passa a sociedade, sua manutenção é ainda desejável. Sendo esta a causa maior, não admira o papel paradoxal do dinheiro e das transações: a operação comercial que o condena é, com efeito, a mesma que o resgata. Na perspectiva do romance, o recurso a todo e qualquer meio de intervenção é válido, desde que o fim último seja o de garantir o sistema de valores ameaçado. Em outros termos, práticas e comportamentos ditos modernos não são em si mesmos condenáveis, podem ser aceitos e mesmo produtivos, salvaguardada a condição inarredável de que sejam postos a reboque da tradição, subordinem-se, sacrifiquem a ela a lógica que lhes é inerente, ou que deveria ser.
A exemplo de Seixas, Azevedo, de O demônio familiar, também se deixa corromper, é mais uma vítima “de uma sociedade corroída como a de Paris” (Senhora; p. 90), ou melhor, da própria sociedade parisiense, onde vivera e de onde regressara completamente “insensível”, como se autodefine. Egoísta e indiferente a tudo que não dissesse respeito à ostentação e aos prazeres mundanos, a vontade que o move é conseguir lugar “na carreira pública”. Para isso não hesita em negociar a posse de uma das moças que escolhe para futura esposa, imaginando-a versada nas artes de salão, o que lhe facilitaria o acesso à sinecura cobiçada. Ele todavia se revela um caso perdido, totalmente contaminado pelas convenções modernas, no que se distancia de Seixas. Rejeitado pelas duas moças cuja conquista ensaiara, contestado pelos amigos que no desenlace a elas se unem, resolve retornar a Paris, optando pelo exílio.
Parte da trajetória de Seixas fora antes também desbravada por Eduardo, que se deixara seduzir pelo canto de sereias da vida social e usufruído dos prazeres efêmeros, até que se reconverte, tornando-se então fiel defensor das virtudes tradicionais. O que há de mais original e interessante no seu caso é que ele se torna agente corruptor, influindo negativamente sobre Pedro, o moleque escravo, o “demônio familiar”. Esta personagem ilustra outro tipo de parasita a espreitar a doxa alencareana: em contraste com Azevedo, ou Seixas, que trazem o perigo do exterior, qual seja, do espaço público, ela atenta contra as virtudes agindo diretamente no interior do núcleo doméstico. Outra diferença crucial é, claro, o lugar hierárquico, o desnível social, que é potencializado por fatores raciais. Sobre o escravo convergem boa parte dos estigmas até hoje aplicados aos negros: a preguiça, a desobediência, a negligência são alguns deles, a que se soma, na peça, a ingerência. Reiterados ao longo do texto, fica a impressão de que tais traços lhe são inerentes. Sua caracterização é feita de modo a realçar-lhe a incapacidade de compreender os princípios abstratos que regiam a ordem familiar, portanto de acatá-los e deixar-se moldar por eles. Além de ser mostrado como inapto e inepto, pesa ainda sobre ele o fato de que conseguira extrair do convívio com os senhores exatamente o que para estes era, ou se tornara, o grande vício, isto é, agir calculadamente tendo em mira satisfazer caprichos e interesses individuais. Na conclusão, apesar de corrompido pelo próprio senhor, e mesmo dito inimputável, ele é o único punido: ironicamente ganha sua “carta de liberdade” e é expulso de casa, cujas portas são a ele fechadas para sempre. Embora inocente, é abandonado à própria sorte, jogado numa sociedade que para ele não previra lugar algum a não ser o de escravo. A doxa, de qualquer maneira, qual fortaleza resta, preservada – é o que importa.
Em O guarani é Loredano quem introduz a maior parte dos desarranjos que testarão a resistência dos alicerces do modelo de civilização arcaica que sustenta a casa de D. Antônio. Ele reúne ao redor de si boa parte do léxico da língua relativo à vilania; é um rebelde consumado, um renegado que não aceita submeter-se à ordem estabelecida, atuando ainda como agente corruptor. Tem todavia ciência das normas e valores que regiam o universo para onde se deslocara, no que se distingue do moleque Pedro. Sabe que a sua condição impunha uma “impossibilidade moral”, levantava uma “barreira... entre ele” e aqueles protegidos pelo “rico fidalgo de solar e brasão” (pp. 38-39), intransponível caso ele não optasse por tentar destruí-la.
Fato até hoje pouco discutido, embora bastante significativo, é que Loredano é um imigrante, algo realçado em inúmeras passagens do romance – seu acento é italiano (p. 17); resume o tipo perfeito do “condottiere” (p. 18); possui “espírito italiano” (p. 39); refere-se ao Brasil, em diálogo com seus comparsas, como “vossa terra” (p. 63); enfim, ele é emblema possível do estrangeiro que, ao contrário do fantoche que Alencar definira nas crônicas, atenta contra a harmonia reinante; do estrangeiro que, obsedado pela ambição da fortuna, a que se soma a incontinência do desejo sexual, não se adequa ao perfil estipulado, não lhe cabendo outro destino senão a inevitável eliminação.
Os três textos atestam o grau de consciência do escritor quanto a embaraços e conflitos, latentes ou manifestos, que pairavam sobre a sociedade brasileira de sua época. As duas crônicas de Ao correr da pena, por sua vez, indicam que já em 1855 ele imaginava providências e soluções que pudessem defender estruturas estabelecidas, em larga medida patriarcais, a que no futuro se manteria fiel. Parte daqueles conflitos são ilustrados nos enredos dos livros analisados, cuja disposição obedece ao intuito de atestar o vigor e a necessidade da manutenção da tradição. Não é de admirar, por isso, que as tramas se movam ou no sentido de uma reconciliação entre as posições em choque, ou no sentido da eliminação ou exclusão dos “indesejáveis”, daqueles que não se deixaram moldar pelas normas instituídas, a vitória de todo modo sempre sorrindo para os que agiam em nome da sua conservação. Brasileiros inapelavelmente corroídos pela civilização moderna, escravos corrompidos, estrangeiros insubmissos: são os “demônios” exorcizados pela pena de Alencar.
Seria ilícito afirmar que o autor não identifica a existência de práticas e posturas diferentes convivendo na sociedade brasileira; ele mostra, contudo, não suportar as diferenças, procurando a todo custo eliminá-las ou afastá-las, mesmo ao preço de esbarrar no estereótipo, ou adentrar no terreno da “bobagem”, como ressaltou Roberto Schwarz. Seu universo ficcional tende para a unidade, para a singularidade, para o fechamento e auto-centramento[7]. Alencar reluta em encarar de frente, com isenção, os conflitos, que chega a divisar, mas se nega a tratá-los com a complexidade por eles exigida, no que se mostra um lídimo representante de sua classe. Seu desejo de assimilar contradições, fantasiar ao invés de assumir os paradoxos, ata o nó górgio que asfixia sua ficção. Para ficar no domínio dos textos discutidos, sua postura guarda enorme semelhança com a de Aurélia: a exemplo dela, entre o ideal e o real, sacrifica o segundo pelo primeiro. Alencar, em sua obra; Aurélia, no livro – o mesmo orgulho, substância que os faz, virado do avesso, os perde.
[1] As crônicas foram reunidas no volume Ao correr da pena, lançado em 1874. Os fragmentos citados são da edição da Melhoramentos, com prefácio de Francisco de Assis Barbosa, de 1955. A indicação das páginas aparece entre parênteses.
[2] Antonio Candido chama a atenção para esse confronto, realçando sua importância sobretudo para a composição romanesca de Alencar. Ele observa que o passado atua na obra do autor como um “elemento condutor da narrativa e critério de revelação psicológica dos personagens” (“Os três Alencares”, Formação da literatura brasileira (Momentos decisivos), 5. ed., BH: Itatiaia; SP: EDUSP, 1975; p. 229). Aqui, porém, a importância do passado como repositório de virtudes morais e existenciais é o aspecto destacado.
[3] Referindo-se à entrada de estrangeiros no país, Alencar grafa sempre “emigração”, e não imigração. Nas citações a opção do autor foi mantida.
[4] Senhora (ed. crítica de José Carlos Garbuglio), RJ, LTC, 1979; p. 84.
[5] O demônio familiar (Comédia em 4 atos), RJ, Departamento de Imprensa Nacional, 1957; O guarani, 11. ed., SP, Ática, 1985; Senhora, ob. cit. Como foi feito no caso das citações das crônicas de Ao correr da pena, nos fragmentos citados no corpo do texto a indicação das páginas é dada entre parênteses.
[6] Antonio Candido, “Um instrumento de descoberta e interpretação”, ob. cit.; p. 109 (itálicos do original).
[7] A cristianização de Peri, em O guarani, que ao final se torna um completo fidalgo, e a complementar “naturalização” de Ceci, que entretanto preserva o caráter de D. Antônio, como assinala o narrador, são também excelente exemplo da inclinação de Alencar para solver conflitos pela conciliação, no caso nitidamente utópica